Deus devolve o revólver

by Régis Bonvicino & Rodrigo Dário

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about

O álbum Deus devolve o revólver se constitui de 24 áudios, com 16 poemas inéditos, que farão parte do livro A NOVA UTOPIA, que está em progresso desde 2014, já com mais de 60 poemas, e será lançado em 2020 pela Editora Hedra (eu não edito novos livros desde Estado crítico, 2013, por mera opção). O álbum surgiu do acaso: eu fui ao estúdio e comecei a gravar com Tamires Pistoresi. Em seguida, surgiu o músico, desenhista e desginer Rodrigo Dário. Antes dele, eu tive a honra de contar com a participação da grande soprano Caroline De Comi, a gravar cinco poemas. No álbum, Rodrigo apresenta quatro peças musicais próprias. Em nenhum dos áudios há o formato “canção”. O álbum tomou umas 35 horas de gravação só dos poemas. Eu tive a ideia de fazer um libreto para os textos, um libreto à la ópera. À la Teatro Alla Scalla, Milano. Deus devolve o revólver (verso de um dos poemas) começou em março e acabou ontem, quando eu regravei pela décima vez um poema longo. De verdade, nada tem a ver com a questão do circuito frágil do livro de poesia, que cabe a todos fortalecer, tanto que sempre lancei livros. Em um primeiro momento, o suporte físico de Deus devolve o revólver será um libreto, editado por conta e vendido pela Hedra (lançamento presencial na primeira semana de dezembro de 2019), e duas dúzias de fitas K7. Todo o trabalho estará nas seguintes mídias digitais: Spotify, iTunes Store, Deezer, Claro Musica, Youtube, Bandcamp etc. Eu queria destacar o prefácio de Alcir Pécora para o libreto, uma frase: “poesia eletrônica heavy”. Em 2020, Rodrigo e eu pensaremos em outros suportes físicos, como o vinil e talvez até o dessueto CD. Haverá um lançamento em São Paulo em março de 2020, com festa e tudo. Régis Bonvicino, 17 de novembro de 2019

credits

releases December 21, 2019

Poemas do livro inédito A nova utopia, de Régis Bonvicino
Leitura dos poemas: Caroline De Comi, Charles Bernstein e Régis Bonvicino
Produção, sonorizações, mixagem e capa: Rodrigo Dário
Edição e captação de som: Tamires Pistoresi
Foto de capa: Wladimir Fontes

Gravado em São Paulo, de março a julho de 2019, no estúdio Espaço-som, Rua Teodoro Sampaio, 462 e 512 , Pinheiros - CEP: 05405-050

2019 © Régis Bonvicino ® De Lírio Records
Produzido em 2019 no estúdio Toca do Macaco da De Lírio Records;

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De Lírio Records São Paulo, Brazil

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Track Name: A Nova Utopia (1)
A nova utopia é uma borboleta negra, desatenta, com olhos exuberantes. A nova utopia é a favor da proteção implacável dos animais. A nova utopia é inclusiva, participativa. A nova utopia é o coro afinado dos descontentes. É um ex-guerrilheiro, de porte avantajado, homem forte do governo. A nova utopia tem informações privilegiadas, disponíveis. É um ex-leproso. A nova utopia rechaça a figura de Nossa Senhora se masturbando. A nova utopia defende os direitos das trabalhadoras do sexo. A nova utopia comunga, com moderação, ideais materialistas. A nova utopia morre de pé. É, ao mesmo tempo, um duty free e um detox financeiro. A nova utopia é nosso dever como cidadãos. A nova utopia exalta a sustentabilidade das empresas. A nova utopia sabe que se pode ser árabe e muçulmano, árabe e não muçulmano, muçulmano sem ser árabe. Negro sem ser branco, branco sem ser negro. A nova utopia é a liberdade de expressão do Le Monde, reassegurada desde sempre. A nova utopia é um ajuste de contas contra o obscurantismo dos outros. A nova utopia rejeita factoides politicamente úteis. A nova utopia é um pouco xiita, apenas quando estritamente inevitável. É um turista americano visitando o Museu Abu Ghraib. A nova utopia tem logo e slogan. Condena chacinas na periferia. A nova utopia emite notas de repúdio, lança abaixo-assinados; defende o grafite; a nova utopia prega a bicicleta. A nova utopia é o respeito incondicional ao nanismo. Condena corruptos. É um ex-ladrão. Tem seu próprio dicionário. Pensa antes de agir. Repele palavras e pede ação. A nova utopia é um ex-coxo. É a asa aberta do voo. É um showroom de exuberâncias naturais. É um céu com nuvens negras, sob controle. É uma estante de livros num banheiro. É a viúva de Jorge Luis Borges detalhando seu processo de criação. A nova utopia é um ex-macumbeiro, um ex-bêbado, é um ex-exu sujo. É um branco de alma preta. A nova utopia é ainda o indígena de tocheiro, fazendo política, diariamente, nas redes sociais. A nova utopia é uma ex-esteticista de unhas postiças. É um espião trans pegando sol num roteador. É um ex-selvagem. É uma ex-vadia. É um ex-puto. É uma entendida. É um ex-pária. É uma míriade de franquias de poetas premiados. É um poema à altura de seu tempo.
Track Name: Vinheta (1)
“Boa noite. Deus devolve o revólver”
Track Name: Ficção
Pendurada de cabeça para baixo
via ao contrário a coluna em estilo coríntio
da antiga estação de trem
o poder político dos estoques

as sacas de café, Bolsa de Nova York,
camionetes queimadas
um som adocicava o Largo
talvez fosse o de uma nova canção dos Beatles

“Metralhado e morto outro facínora”
você com essa cara de filha de Maria
uma paulada na coluna
quebra as vértebras dessa puta

boca fechada, o aparelho intacto
flashback íntimo
o apontamento entre as páginas de um livro
o porta-malas do camburão

as manchetes nas bancas
“O PIB vai a 10%”,
“Prisioneiros viajam hoje”, alívio
baratas na vagina

corte, tesoura, um talho no sutiã
tesoura roçando os seios
pode pisar neles
barata devidamente arquivada no cu

o capuz, cabeça enfiada na água suja
os gritos sem porrada
ramos de café perfilam o capitel
portas maciças da altura do edifício Itália

as teclas da pianola
em outro andar, mãos algemadas
nu na cadeira do dragão
o corpo do cara ficou odara
Track Name: Sermão
Uma joint-venture de sem tetos, pele e osso, com medo da polícia, aglomerada
no centro histórico de São Luís, mais de meia-noite, um dos mendigos, bêbado, diz


palavras ao vento
botaram Ford Landau no convento
padre não prega mais de costas –
contra – como Vieira, mas de joelhos

me ouçam logo de novo os peixes
tambor também não põe a mesa
galinha morta é veneno
o boi-bumbá só tem cordeiro

para que serve tanto azulejo?
botaram mais um ladro no governo
urubu bica pedregulho
mato nasce em telhado

o duque pega tudo
é bem mais de 10%
lenda é passatempo
ganja é coisa de regueiro

o mendigo há de subir
com o crack na cabeça
moeda aqui cai somente no bueiro
escadaria é monumento

miséria aqui é matinê
é bom guardar segredo
cavalo
não defeca mais dinheiro
Track Name: A Mão Que Afaga
“A mão que afaga é a mesma que apedreja
Apedreja essa mão vil que te afaga”
Track Name: Álibi
Oh, Pai, tende piedade
dos zilionários, dos vendedores legais de armas
dos lobistas, do dinheiro farto dos narcos
dos unhas de fome, dos gigolôs dos cassinos
dos traficantes de iguanas, rim e fígado

Oh, Pai, tende piedade
dos banqueiros, dos juros sobre juros,
do laissez-faire chinês, do marketing do bem
dos plutocratas, dos fundos-abutres
garras, o condor-dos-andes não canta

Oh, Pai, tende piedade
dos meões do dinheiro sujo dos contratos públicos
daqueles que depreciam os papéis de P.P. Pasolini
daqueles que lavam dinheiro com H. Matisse
misericórdia divina, delícia e êxtase dos santos

Oh, Pai, tende piedade
dos xeques, dos grandes proprietários de terra
daqueles que não entregam a lebre
dos traficantes de marfim, caveiras com dentes e pedras
da criptomoeda, dos chefetes políticos despóticos

Oh, Pai, tende piedade
dos traficantes de lixo eletrônico, dos agiotas
dos matadores de aluguel, dos guarda-costas
dos sócios ocultos, dos donos de offshores
Oh, Pai, sobretudo tende piedade de nosso honrado boss.
Track Name: Tarde
Junto ao muro arbustos, cactos
um deles, pontiagudo, alto,
avança na calçada
um grupo de nuvens cinza pesa
no ombro de uma mendiga negra que passa
poste, fios, janela, uma gambiarra
um carro pifado na guia
a um passo da avenida
parede de cubos de vidro
edifício, canteiro de espinhos,
dorme
estirado a uma certa distância da entrada
cabeça sobre a garrafa vazia de água
o sol de inverno bate direto em sua cara
roupas do corpo,
sem sapatos,
não tem mais nada, não tem spleen
só tem porrada
Track Name: Perspectiva
Muro baixo do cemitério
um galho da tipuana atravessa o arame farpado,
túmulos à vista, altos
duas cruzes de mármore

do lado oposto da rua
um cara estirado na calçada
debaixo das grades da janela do térreo
o motorista dá a partida

um casal: o marido empurra o carrinho do bebê
pessoas entram no edifício de tijolos à vista
na pequena casa geminada: consertos rápidos,
costureira na máquina

um gavião pousa numa antena
o cara acorda
olha para as grades, mija na parede,
mais uma loja fecha

a de aluguel de fantasias,
roupas para teatro e cinema
um mendigo se apaga nessas linhas
outro reaparece na cena
Track Name: Caroline De Comi - Retrato
Uma carroça cruza a pista
carregada de garrafas, caixas, cabos, um motor
Sábado à tarde, fim de verão,
lojas fechadas

o sol bate nos letreiros
cachorros disputam um saco de lixo
ônibus passam, meio vazios
um motorista para no ponto de táxi

vestidos de núpcias, vitrines,
Miss Luxúria
gambiarras nos postes
fios atravessam a copa de uma goiabeira

na esquina da rua Oriente
com a rua Casemiro de Abreu
nuvens,
o mormaço, atrás das folhas, se atenua

uma única flor,
pétalas brancas, estames amarelos,
abrupta
uma letra pende

do alto da porta de uma loja
um mendigo dorme
cabeça largada na mureta do canteiro
goiabas apodrecem em autópsia mútua
Track Name: Trailer
Um cara descarta o resto do sanduíche
recostada no pé da lixeira
um pedaço de pão cai na cabeça da mendiga,
um outro cara joga um maço de cigarros vazio
a mulher é negra,
umas garotas, lata de pepsi, casca de sorvete
lojas, o logo do banco, câmeras
um cara atravessa na faixa
ela pede esmola:
“Eu não sou artista”
o executivo olha para o outro lado da avenida
um camelô entra na calçada
o dia porra tem que valer a pena
no quiosque, a manchete:
“O desemprego aumenta”
um obeso mórbido passa,
camiseta branca, encharcada de suor,
a raiz do fícus força as bordas do canteiro
sem nenhum puto entre os dedos
a câmera pifa, ela sai de cena
Track Name: Lápide
Os soluços longos dos violinos do outono
aqui Rimbaud
aquele otário
te enrabou por uns trocados
Track Name: Haiku
Pedra no cachimbo
Estação da Luz: porrada
Verão, sol lilás

Pedra, narguilé
Doce como mel: porrada
Verão, o sol âmbar

É o Incrível Hulk
Um avião nos pés: porrada
Janeiro, sol púrpura

Uns tragos na lata
De asas já nos pés: porrada
Março, sol turquesa

Cachimbo, cristal
Braços alados, porrada
Março, um raio fúcsia

Lata sem anel
O anu bica o olho do noia
Isqueiro na dobra

Pedra no cachimbo
Arco-íris nos pés, porrada
Dezembro, sol sépia

Canudo, Yakult
Mãos lixam o céu, porrada
Março, sol magenta

Cachimbo na roda
Garras de tigre, porrada
Janeiro, sol jade

Em nome de Buda,
Nada obstante uma brisa
Verão, sol sem cor

Cavalo, porrada
O tubo de pvc
Outono, sol ágata
Track Name: Vinheta (3)
Deus devolve o revólver
Track Name: Luz
Sucateiro rastafari
sentado na mureta, cabeça baixa
sob as palmeiras do largo
pés na mochila, garrafas pet

player do ecossistema global
um rato entra no bueiro.
O relógio da Luz
sob um sol de rachar

daqui é apenas uma torre
o vapor sobe do asfalto.
Cicatriz na cara da puta
pista dupla, atravessa a avenida

short verde, blusa regata
cabelo curto, o michê esfria
os muros exalam um cheiro de urina.
A noite abate o dia

um cachorro fareja, tranquilo,
a calçada limpa,
outro, órfão de um noia,
uiva na esquina.
Track Name: Hic Jacet Lepus
Perto de uma sinagoga, enquanto
o faxineiro varre a entrada do prédio,
um catador, velho, de barba rala,
pega uma latrina na caçamba

Outro catador, boné branco,
“ulalá” grafado em azul acima da aba, 
dois dentes podres à vista,
repete em voz alta: “o lixo é sujo”

Na banca, uma tevê: ataques na Síria
bombas na cara dos civis
Outro sucateiro, de mãe talvez zíngara,
saco plástico preto, aberto, percorre a calçada

latas vazias de Pepsi, Coca, cerveja
pede na lanchonete, no self-service, no bistrô
Na saída do shopping militantes coletam assinaturas para
um manifesto em favor das abelhas,

ágora na hora da xepa,
um santinho da Virgem colado no poste
um garoto negro, quase no ponto de ônibus,
um par de baseados no bolso,

é preso em flagrante, por tráfico?
leva porrada na rua, ora pro nobis
camburão, algemas
deus devolve o revólver
Track Name: A Nova Utopia (2)
É um discurso estritamente atrelado à realidade
É um inferno fiscal
É uma empresa real
É o lado útil da palavra

É uma brancaiada tola
É a nota mínima
É o aplicativo Equitable
É um café da manhã sem lactose

É a cerveja sem álcool e o cigarro eletrônico
É uma prece, e não a Ave Maria, sussurrada
num beco de uma favela
É um sinônimo de vândalo

É o alarme contra
o impacto ambiental de um passeio de barco
É um protesto contra aulas de inglês
É uma tr@b@lh@dor@ em transição de empregos

É um supervilão asfixiando apenas machos
É um chá com escritores do website e do jornal
É um pet sem sobrepeso
É a queda programada da taxa de juros

É um ladrão de galinhas
É um desvio de verbas públicas
É a vítima de um assalto
se desculpando com o assaltante

É a redenção ecológica do joio
É um approach jurídico para o diabo
É um cego paraolímpico
É um antiverso altamente subversivo

É um alvo potencial do terrorismo linguístico
É um drácula hard-core doando sangue
É o direito à segunda via garantido
É um morador de rua revirando uma lata de lixo seletivo

É o produto da venda legal de armas
Violinos afinam a brisa fétida
É uma lavagem de palavras
É uma filha convicta da pátria
Track Name: Caroline De Comi - Áudio
O sol da manhã bate em sua cara
deitada no chão
rente à mureta do parque
fios de cabelo branco escapam da tiara

cabeça sobre a bolsa
em frente à torre do relógio da estação
hibiscos vermelhos:
renques ao longo das grades

mão sobre o rosto
talvez ela tenha chegado no último trem da noite
talvez ela não esteja dormindo
talvez ela esteja sem clientes

vestido longo cinza
sapatos baixos, pele seca dos pés
talvez ela esteja a caminho do emprego
talvez ela vá pegar o metrô

a polícia aqui não mata todos os dias
ao fundo palmeiras em linha
mendigo negro, cabeça baixa,
de novo, sentado na guia

um ambulante vende água
talvez ela tenha escrito os versos:
“desatenta, fui castigada,
passei a vida ao largo”.

talvez ela tenha feito algum dinheiro
talvez ela seja figurante de um filme
talvez ela seja um cartaz perdido
a luz, rasante, incide sobre as rugas de seu rosto

a mandíbula de uma arara
um gavião pousa no topo de um cedro
mais alto que os prédios
talvez ela seja um acará ou uma carpa

espelhos d’água
uma andorinha, fosforescente, sobrevoa a grade
talvez ela não seja mais que um efeito de arte
talvez ela não passe de um close-up
Track Name: Da Janela Do Quarto
Manhã, janela do quarto do hotel:
o carroceiro puxa a carroça
uma van da Transcootour passa
pés descalços no asfalto

gaivotas e urubus
se encaram por lixo, peixes e céu
banhistas em sua rotina mecânica de
sol, areia e ginástica

duas putas insones roçam
os peitos nos vidros
de um Honda Civic.
A garota de Ipanema

de Vinícius e Tom Jobim
mora hoje em Arrelia, Andaraí
é mais que um poema
paga o dízimo, da igreja e da milícia,

ônibus lotado, caindo aos pedaços,
de moto, um PM arranca o celular
hoje pelo menos faltou presunto
a caminho do mar,

e sua irmã gêmea, a coisa mais linda,
mora com o gigolô da boca
em Drummond, Cachambi
Papelotes de cristal e cocaína no sutiã

à noite, frequenta o Leblon
Troca de tiros na web e na tevê
Complexo da Maré,
Bossa Nova nightmare



Publicado em Le Monde Diplomatique
sob o título “Copacabana classic”, 1º de dezembro de 2008,
reescrito em 2018
Track Name: Charles Bersntein - The New Utopia (1)
The new utopia is a black butterfly, inattentive, with lush eyes. The new utopia is in favor of the ruthless protection of animals. The new utopia is inclusionary, participatory. The new utopia is a tuned chorus of discontent. Is a burly ex guerrilla, a government strongman. The new utopia has insider information available. It is an ex leprosy patient. The new utopia rejects the figure of Our Lady masturbating. The new utopia fights for the rights of sex work service providers. The new utopia shares, in moderation, materialistic ideals. The new utopia dies standing. It sells both duty-free items and financial detox. The new utopia is our civic duty. The new utopia praises corporate sustainability. The new utopia knows you can be an Arab and a Muslim, an Arab and not a Muslim, a Muslim and not an Arab. You can be Black without being White, White without being Black. The new utopia is Le Monde’s freedom of expression enshrined forever. The new utopia is a reckoning against the obscurantism of others. The new utopia rejects politically expedient factoids. The new utopia is a bit Shiite, only when strictly unavoidable. Is an American tourist visiting the Abu Ghraib Museum. The new utopia has logos and slogans. Denounces killings in poor neighborhoods. The new utopia condemns actions, circulates petitions; it champions graffiti; the new utopia advocates bikes. The new utopia is unconditional respect for underachievers. Condemns corrupt leaders. Is an ex crook. It uses its own dictionary. Looks before it leaps. Rejects words and calls for action. The new utopia is an ex amputee. Is an open wing in flight. Is a showroom of natural lushness. Is a sky with dark clouds under control. Is a bookcase in a bathroom. Is the widow of Jorge Luis Borges explaining his creative process. The new utopia is an ex macumba devotee, an ex drunk, an ex Exu punk. Is a whitie with a Black soul. The new utopia is also the torch-bearing Native politicking daily on social networks. The new utopia is an ex beautician with nail extensions. Is a trans spy catching some sun on a router. Is an ex savage. Is an ex bitch. Is an ex hustler. Is a lesbian. Is an ex pariah. Is a myriad of prize-winning poet franchises. Is a poem in tune with the times.
Translated by Odile Cisneros
Track Name: Caroline De Comi - A Nova Utopia (7)
To dream has been the business of my life. A nova utopia mata por adição e, entre outras coisas, por agonismo opioide. Faz seu inimigo sentir náuseas, sonolência, vertigem, vômitos, dor de cabeça, pressão baixa e choque. Faz seu inimigo falar com voz de lixa: ela não brinca em serviço. A nova utopia não é um despropósito. O novo utopista não é um dândi da sombra. É o drone suicida roubado da Kalashnikov: carrega explosivos e abre caminhos na selva, na favela, nas cidades. Tudo pela causa. Também ecológica, é a favor de cocaína batizada com pó de nenúfar. É a favor, unicamente, de obras como as de Shakespeare a cada manhã. A nova utopia – mirando um futuro melhor – faz tráfico limpo. O raio de sol só aparece à noite, para desanuviar. Pense, pense, você está na Terra: não há remédio. Fique tranquila, numa boa. Tantos miligramas de Depakote, tantos de Topiramato, a bula do Aristab – a rotina diária sem tréguas de pílulas por uma década. Comece por Zyprexa. Um robô morre em Marte. Um cara atira, entre prateleiras, contra a própria cabeça dentro da farmácia. Nada, absolutamente nada, mais um saco de merda sem qualquer mérito. Má notícia não existe. Dinheiro não fede. A chuva, a chuva, a tempestade, uma enxurrada de lixo sobe dos bueiros às ruas. Sob a marquise, um bispo se esgoela num megafone: “botar um baseado nos lábios é como fazer sexo oral para o diabo”. Só pode ser o trecho de um filme, ouça o refrão da música: “eles disseram que o inferno ferve”. O novo utopista é um sicário indie. É chefe e servo de si mesmo. É uma fera. Atira de bate-pronto nos sequestradores de cérebros e nos revendedores de memória, que operam o mercado negro. Mata de verdade. É a favor do copyright. É contra o copyleft. O novo utopista aplica doses pesadas de morfina nos algoritmos. Para ele, o algoritmo atropela o trabalho. Outra cena? Crack é a vitória. Um mendigo puxa uma pedra na lata amassada de Coca-Cola. O novo utopista batalha pela liberdade entre muros. Pede a benção à deusa guarani Jururá-Açú para assassinar o diabo do velho utopista. À semelhança dela, entra e sai do inferno como quem troca de camisa. Não faz papel de morto coadjuvante. O ódio move mais do que qualquer programa político. Só pode ser mesmo um filme. Olhe o décor. Trabalha também com fungos alucinógenos e LSD, para fazer mais grana para a luta. É um ponto de partida. Por que dizer isto aqui? Cai o letreiro: tantos miligramas de Quetiapina, o antipsicótico atípico, as bulas, o Latuda: para que desespero? Johnson & Johnson, Pfizer, Merck & Co, Bayer, Novartis, EMS Corp, Roche holding, Libra. Um grito talvez em off se ouça no cenário. Uma garota se joga do topo do edifício. Sonhar, sonhar, sonhar, é o grande negócio da vida!

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